LIBERTAÇÃO
Por onde começamos? Por onde alguém deve começar no caminho para o despertar?
Eu sugeriria simplesmente perguntar a si mesmo: “Quem sou eu realmente?”.
No início, a mente esgotará todas as possibilidades para tentar descobrir quem somos.
“Quem sou eu?”.
Essa pergunta leva a mente a uma direção desconhecida.
Direcione sua mente para dentro de você e observe o “eu”.
Para realmente ter essa experiência da realização de Deus. A auto-realização.
Nunca saímos de casa. Nunca saímos de casa em nenhum momento da viagem. E, no entanto, a viagem parece ser necessária para a maioria de nós.
Um buscador genuíno não tem um plano B.
Então pergunte a si mesmo: quem é o eu que está consciente dos pensamentos?
Um fato surpreendente… Eu não sou. Eu.
Então, o que sou? É como um enigma.
Precisamos estar conscientes do nosso Ser tal como realmente somos. Precisamos investigar o nosso Ser.
Pergunte a si mesmo: quem sou eu?
Pergunte a si mesmo: quem sou eu?
A iluminação ou a libertação não consiste em acrescentar nada, mas em encontrar o que já está presente. Portanto, é necessário algum tipo de investigação.
Descubra o meditador. Descubra quem quer meditar.
A meditação e a autoindagação convergem em um determinado ponto, de modo que, quando descobrimos quem somos, a meditação é simplesmente ser quem somos.
A meditação é o que somos, não o que fazemos.
Você realmente quer a libertação? Se você realmente quer a libertação, a libertação é possível. Mas o despertar não é suficiente. É apenas o começo.
O que é a libertação? A libertação é a quietude final. Não é uma experiência, nem um estado. Você não alcança a libertação. Você se lembra ou desperta para aquilo que não pode ser perdido.
Despertar é vislumbrar o eu atemporal. Lembrar-se do que você é além do jogo dos pensamentos. Mas a libertação é o silêncio após o eco. A cessação.
O despertar é o fim da busca. A libertação é o fim do buscador. A libertação não é um novo projeto para o ego. Não é uma agenda a cumprir.
Não é alcançada seguindo um caminho linear ou passos dogmáticos até a conclusão. Mas isso não significa que não haja um processo de desenvolvimento ou amadurecimento espiritual ao longo do tempo. A libertação é quando nos tornamos uma ponte viva entre o tempo limitado e o atemporal, de modo que o eu limitado ou separado renuncia a todos os pensamentos e ações egocêntricos.
Ramakrishna Paramahansa, um venerado místico e santo indiano, usou a analogia de uma boneca feita de sal. Imagine que uma boneca de sal decide investigar o oceano e, à medida que se aproxima dele, se funde nele. Ela se dissolve. O que acontece com a boneca de sal é análogo ao que acontece quando o eu individual se funde com o verdadeiro Eu; Atman ou Brahman, o oceano do Ser puro.
As tradições antigas e os mestres espirituais sempre descreveram a libertação, não em termos da aquisição de algo, mas em termos de eliminar a ilusão, resultando na cessação da atividade egóica. Patanjali, o criador dos Yoga Sutras, disse que o objetivo do yoga é a cessação do turbilhão da mente.
Existem muitas lentes que podemos usar para olhar para a libertação, tais como Advaita Vedanta, Zen Budismo, Dzogchen, Mahamudra, sistemas ióguicos e indicadores que nascem das percepções daqueles que realizaram a sua verdadeira natureza. Em todos os casos, encontramos um continuidade do relativo ao absoluto, da identificação com o eu limitado a uma não-dualidade cada vez mais profunda e à incorporação da verdade. Vamos começar a nossa jornada com o Zen.
Por mais de mil anos, o Zen tem falado em paradoxos. Ele aponta para o informe usando a forma, para o silêncio usando o som, para a verdade através de enigmas e para a presença através da ausência. Um dos ensinamentos mais duradouros do Zen é uma série de dez desenhos simples a tinta.
As imagens de pastores de bois… originárias da China do século XII e refinadas no Japão. Estas imagens retratam um buscador solitário e um boi, uma metáfora para o caminho sem caminho da libertação.
O boi representa nossa verdadeira natureza; a Mente Única ilimitada ou o verdadeiro Eu além do pequeno eu.
O pastor de bois é aquele que a busca. Perseguindo o que não pode ser alcançado. Procurando algo que nunca foi realmente perdido. Essas dez imagens traçam um arco desde a busca, passando pelo encontro, até o desaparecimento total do buscador e do buscado.
Este não é um caminho no sentido convencional. Não há passos a seguir. Não há fim a alcançar. O Zen chama isso de caminho sem caminho.
Um retorno ao que sempre foi. Oculto apenas pela crença de que estamos separados dele. Neste filme, exploramos o mistério da libertação, não como uma ideia, mas como um silêncio vivo e respirante, que permanece quando tudo o mais desaparece.
Parte Um – Em busca do boi.
Começa com a sensação de que algo está faltando. Uma sensação subjacente de insatisfação. Há inquietação, um sussurro na alma, de que este mundo de formas, de “transformação”, não pode ser tudo o que existe. A primeira imagem do pastoreio de bois mostra um jovem buscador vagando por uma floresta densa. Olhos procurando, coração incerto.
Essa é a condição humana. Olhar para fora… Alguns buscam prazer. Outros buscam conhecimento e outros ainda buscam na religião. Mas todos buscam a mesma coisa. A Verdade, o Eu, a fonte ou Deus. A base do Ser. No Zen, essa busca não é condenada. É honrada, pois mesmo na confusão, há sinceridade. Mesmo na peregrinação, o cheiro do boi está próximo.
Outra lente para nos ajudar a entender a libertação é o Advaita Vedanta. No Advaita Vedanta, moksha ou libertação não é sobre ganhar algo no futuro. Não é sobre alcançar. É ver claramente que você não é o que pensava que era. O eu limitado pelo tempo. E é sobre perceber diretamente aquilo que está além do mundo dualístico do tempo.
O que é Vedanta? Como todas as perguntas desse tipo na história da Índia. Tudo remonta a alguns milhares de anos. Vedanta é a fonte do conhecimento espiritual chamado Upanishads.
Os Upanishads têm um ensinamento central. Um ensinamento central em todos os Upanishads, que é “conhecer a si mesmo”. Você é a realidade suprema. Se você conhecer a você mesmo, conhecerá Deus. Você quer conhecer Deus? Não vá procurar Deus lá fora. Vá para dentro. Você encontrará Deus aqui. Quando você for para dentro, descobrirá que Deus está em toda parte.
Uma coisa comum a todas as várias escolas e professores de Vedanta é essa visão maravilhosa da vida humana. Todos os professores de Vedanta ensinam a divindade interior do ser humano. Que somos Espírito, que somos Consciência pura. Somos Ser puro com um revestimento material e psicológico.
Os Upanishads ensinam que o que você é um sem um segundo, e um sem outro. Não há nada além de você, um sem um segundo. Em sânscrito, isso é chamado de Advaita. Advaita significa não-dual; Não-Dualidade. Dvaita significa dualidade. Advaita significa não-dualidade.
Agora, o ensinamento central do Advaita Vedanta pode ser colocado, felizmente de forma muito simples e direta. Você é isso. Você, eu e todos os outros, somos esse Ser puro, essa existência última, a base deste universo.
A dualidade parece ser a base de todos os seres vivos. Existe a pessoa, o eu ou a entidade, e existem todos esses objetos de percepção, e nós estamos separados deles. Algo está faltando e queremos alcançar isso para nos sentirmos realizados. Assim, surge um anseio, um desejo, devido à nossa sensação de incompletude.
Então, todos nós buscamos realização, plenitude, felicidade. Esse é um estado de dualidade. Estado do ego. Estado de separação. A não-dualidade é o oposto completo. A não-dualidade é uma unidade, uma ausência de separação. Você não tem fim. Você é ilimitado. Você é ilimitado porque não está separado de nada. Você é contínuo, entrelaçado com a realidade, com o universo. Nada está faltando em você.
A sensação de unidade é por vezes chamada de experiência direta. Muitas técnicas e práticas direcionam nossa atenção para o campo somático, para o campo sensorial, onde se poderia dizer que é o próprio campo dos fenômenos em mudança. Em práticas como a meditação Vipassana, os meditadores são treinados para observar o corpo e a mente sem reação. Observar as sensações surgirem e desaparecerem sem se apegar. Tudo é observado… formigamento, pressão, calor, emoções, tudo é permitido.
Aprendemos a parar de perseguir o prazer e evitar a dor. E uma espécie de alquimia acontece quando nos abrimos para tudo como é. Começamos a amar tudo como é. Até amamos nossa dor. É assim que começamos a compreender a impermanência, não como um conceito, mas como uma verdade somática viva. Continuamos nossa prática até percebermos aquilo que não muda.
Só há uma coisa que não muda, e isso é o verdadeiro Eu, que não é uma coisa. As práticas e técnicas em si são eventualmente abandonadas porque toda prática, toda técnica ainda é uma ação. Ainda é parte da mente condicionada.
Existem muitos graus e tipos diferentes de experiência de união possíveis, dependendo do grau em que o corpo-mente se desligou. Pode variar de uma experiência sutil de energia, presença, bem-aventurança, bem-estar, sentimentos de amor e paz, à experiências radicais, místicas, inefáveis e não-duais. O que as pessoas chamam de despertar da Kundalini é quando essa energia interior está particularmente forte.
Quando essa energia entra em alinhamento, há uma sensação de união com tudo o que existe. Se você não sabe quem você é e tem esse tipo de experiência de fusão, a mente quase inevitavelmente se tornará uma mente em busca. Nasce o buscador. Todas as experiências, toda a dor e todo o prazer vêm e vão. Mas quem é que permanece? Descubra quem permanece.
Parte Dois – Vendo os Traços.
O buscador começa a perceber algo. Não o boi em si, mas, os traços de sua passagem. Um vislumbre de paz na meditação. Uma frase em um texto sagrado que perfura o coração. Um momento de quietude no caos da vida. Essas coisas não são a verdade, mas apontam para ela, como pegadas na neve fresca.
Os vestígios sugerem que algo real esteve aqui. Algo além do alcance da mente. O caminho ganha uma nova urgência. Agora, o buscador não está mais vagando sem rumo. Há um cheiro no vento, uma trilha na vegetação rasteira. Mas esteja ciente de que esses sinais podem se tornar distrações.
Muitos confundem os rastros do boi com o próprio boi. O dedo com a lua, o mapa com o território, o cardápio com a refeição.
O problema na vida humana, do qual todos os problemas derivam, é o nosso sofrimento. Nossas lutas neste mundo, nossa infelicidade, nossa angústia existencial são porque não conhecemos essa verdade sobre nós mesmos. Que somos Brahman. Somos a realidade absoluta. Somos puro Ser. De acordo com o Advaita Vedanta, essa ignorância está na raiz do nosso sofrimento e, portanto, a maneira de remover o sofrimento, a maneira de alcançar a realização na vida humana é remover essa ignorância para perceber o que realmente somos.
Neste momento, pensamos que somos apenas esta pessoa, que esta é a nossa vida e que estamos lutando. Às vezes, fazemos um trabalho não tão bom, outras vezes, um trabalho um pouco melhor, e assim continua até morrermos. E depois, não sabemos. Ou não existimos depois disso, tudo acaba, ou as religiões dizem-nos que existe algum tipo de existência pós-morte.
O Advaita Vedanta nos diz que toda esta vida presente que parecemos ter e uma possível vida futura são apenas aparências… não são a realidade última sobre nós mesmos. Não são a verdade sobre nós mesmos. A verdade sobre nós mesmos é que você é ou eu sou, todos nós somos Brahman. Existência. Consciência. Bem-aventurança. Infinitude.
Então, o caminho sem caminho diz que você já é um Ser ilimitado e sempre presente, cuja natureza é a paz e a felicidade. Você não precisa fazer nada para chegar lá. Você já é isso. Simplesmente veja isso e seja isso conscientemente.
Mas você se sente assim? É essa a sua experiência de vida? Suas emoções se expressam com base nisso? Sua mente se expressa com base nisso? Você manifesta essa compreensão 24 horas por dia, 7 dias por semana? Você é uma expressão viva disso?
O renomado professor de não-dualidade, Sri Nisargadatta Maharaj, é reconhecido como um dos principais expoentes do Advaita Vedanta. Sua abordagem não era ensinar nenhum sistema, mas guiar os buscadores à experiência direta. Ele dizia: não confiem em palavras e conceitos.
Você pode saber tudo intelectualmente, mas ainda assim não ser livre. A verdadeira realização não é o mesmo que conhecimento, é Ser. Ele fez uma distinção clara entre compreensão intelectual, que é compreender conceitos; e realização, experiência direta do eu… e libertação, que é a permanência final e irreversível no Eu, que é livre de padrões condicionados inconscientes.
Como Nisargadatta, Sri Bhagavan Ramana Maharshi era a personificação do Advaita Vedanta. Um sábio indiano que, sem pregar ou tentar atrair seguidores, guiava os buscadores além do pensamento do “eu” para o Ser sempre presente, não nascido e indivisível.
Os ensinamentos de Ramana centram-se no caminho direto para a libertação. Ele não queria que fizéssemos desvios desnecessários. Ele apenas nos deu o caminho simples para a libertação, o caminho mais fácil, o caminho direto. E o que ele disse é o caminho certo. E tudo o que temos de fazer é descobrir o que somos.
A maioria de nós pensa que é uma pessoa. Pensamos que somos seres humanos. Ramana diz que você não é uma pessoa e que, na verdade, não é um ser humano. Somos algo muito maior, muito mais profundo do que isso. Você é outra coisa, algo divino, algo maravilhoso. Isso é chamado, nesta forma de falar, de seu verdadeiro Eu ou o Eu.
Este verdadeiro Eu que somos, todos nós sabemos em nossos corações esta verdade. Todos nós já sabemos o que somos. Bhagavan Ramana nos disse que o primeiro pensamento que temos é o pensamento do “eu”.
Este pensamento do “eu” identifica-se como sendo um corpo-mente e todos os outros pensamentos surgem a partir daí. Portanto, tudo o que temos de fazer é descobrir o nosso Eu e descobrir a falsidade deste pensamento fundamental: “Eu sou o corpo-mente”.
Precisamos estar conscientes do nosso Eu como realmente somos e, para estar conscientes do nosso Eu como realmente somos, precisamos investigar o nosso Eu. Investigar o nosso Eu significa que precisamos voltar nossa mente, nossa atenção para dentro, para nos concentrarmos em nosso próprio Ser.
Bhagavan sugere duas perguntas que devemos fazer. A primeira pergunta sempre tem a mesma resposta. A primeira pergunta é: “Para quem esses pensamentos ou fenômenos surgem?” A resposta é sempre… “Para mim”. E a segunda pergunta é: “Quem sou eu?”
Então pergunte a si mesmo: quem é o “eu” que está ciente dos pensamentos? E não dê nenhuma resposta. Porque se eu der uma resposta, isso seria outro pensamento. Então, sem dar nenhuma resposta, eu me pergunto: “quem sou eu?” E eu simplesmente permaneço. Outro pensamento pode surgir. E então eu repito o processo. Chega um momento em que os pensamentos se tornam cada vez menos e menos e simplesmente se aquietam por completo, quando se experimenta o núcleo da própria natureza.
Meditação é… não é meditação. É investigação. É a busca. Bhagavan disse: descubra o meditador, ele disse: “descubra quem quer meditar?”
Onde você indaga, de onde surge esse pensamento do “eu”, porque todos os dias, no sono profundo, encontramos o pensamento do “eu” se fundindo com a Fonte. A Fonte onde o pensamento do “eu” se funde é o Coração. E a partir daí, quando você acorda, a primeira coisa que surge é esse “eu”. É o primeiro a brotar. Então a mente floresce. Se estiver parcialmente aberta, você sonhará. Quando ele surge completamente, você acorda. Portanto, todo o processo de criação está acontecendo dentro de você. Todos os pensamentos dependem do pensamento do “eu”. E os pensamentos formam a mente. Em essência, o pensamento do “eu” é a mente.
Parte Três – Vendo o Boi.
Este é o momento da realização direta. O buscador seguiu os rastros, os ensinamentos, os vislumbres, o sentido do real e agora contempla o próprio boi.
O Eu. Consciência Pura. Natureza Búdica. Não conceitualmente, mas diretamente. Isso é kensho… ver a sua verdadeira natureza. O véu cai. Ainda pode haver pensamentos, emoções e padrões egóicos. Mas, nesse momento, você não está mais identificado com eles. Você vê. E o que você vê não é uma coisa, mas é o próprio ato de ver. No Zen, eles chamam isso de kensho.
Ver a sua verdadeira natureza. Não intelectualmente, não como crença, mas como um choque de clareza. Uma limpeza da mente que não deixa espaço para dúvidas. O buscador agora sabe: eu não sou este corpo. Não sou esta mente. Não sou este nome. Eu sou puro, nasciturno, liberto.
O propósito do ser humano é conhecer a si mesmo. Não há outro propósito. Esse é o objetivo da vida. A auto-realização é o objetivo da vida. Conhecer a si mesmo, saber quem você é, é para isso que você recebeu este corpo humano. É um potencial que, quando você o encontra, Oh, meu Deus, ele sempre esteve lá. Há um lugar dentro de você para descobrir isso.
Não está fora. Está dentro. Essa é a grande descoberta. E esse é todo o ensinamento de Jesus… meu Pai e eu somos Um. E isso é verdade para cada ser humano. Portanto, o corpo humano lhe dá acesso à vida interior, à paz interior. E essa paz, por natureza, é um rio que o leva ao oceano que você é.
Nas tradições antigas, os sábios falavam de diferentes caminhos para a libertação. Alguns seguiam o caminho do Bhakti, ou caminho devocional; seus corações inflamados de saudade, cantando para o Amado a cada respiração, até que o cantor se dissolvia na canção. Outros escolhiam o caminho do karma yoga, o caminho da ação altruísta, onde cada ação era uma oferenda. Cada ato era um sacrifício do pequeno eu para algo maior. E o caminho direto era para aqueles que seguiam o caminho da sabedoria, da autoindagação.
Esses caminhos não devem ser vistos como estradas separadas, mas, sim como facetas de uma única joia. Sadhana é uma palavra sânscrita antiga que se refere às práticas e técnicas ou atividades que levam à realização espiritual, como meditação, yoga, qigong ou qualquer atividade ou esforço consistente e focado destinado à realização.
Ocasionalmente, na história da humanidade, surge uma nova inovação… uma técnica ou prática que cria condições eficazes de fuga para a mente egóica. Aqui, gostaríamos de compartilhar com vocês uma inovação relativamente nova que é um dos métodos mais poderosos do planeta atualmente.
O processo de díade é um espelho sagrado, no qual dois indivíduos sentam-se em silêncio, não para corrigir ou ensinar, mas, para ouvir e comunicar-se com o Ser como um todo. O testemunho diz: “Diga-me quem você é”. Aquele que questiona volta-se para dentro, não para ideias, mas para a experiência direta do ser.
Não é uma conversa. É comunhão. Quando indagamos sobre o verdadeiro Eu, o que vemos primeiro é o eu falso. O processo de limpeza começa e todas as histórias inconscientes, crenças, samskaras ou padrões condicionais vêm à tona para serem testemunhados sem reação. À medida que o processo se desenrola, a mente se prepara para o despertar através da concentração e da rendição profunda, e uma espécie de clareza sensorial é alcançada. Aquilo que não pode ser dito começa a brilhar entre as palavras… sussurrado através do silêncio, entre dois corações.
No Samadhi Center e na iniciativa Awaken the World explorei muitas técnicas diferentes ao longo dos anos e descobri que a técnica mais eficaz para alcançar especificamente o kensho da maneira mais rápida é esta técnica de dupla de Charles Berner.
Charles Berner combinou o rigor da tradição zen, a sessão zen, onde eles fazem períodos realmente rigorosos de meditação zen. No zen, eles trabalham com koans, o koan mais famoso é “quem sou eu?”. Ele combinou o koan “quem sou eu” e o autoquestionamento que vem de professores vedanta como Ramana Maharshi, com a técnica da dupla utilizada na psicologia moderna.
Então, ele uniu esses mundos e criou esse processo de díade. Há uma intensidade nessa técnica que é muito difícil de alcançar nas práticas tradicionais de meditação. O objetivo da díade e do autoquestionamento em geral é despertar para nossa verdadeira natureza. Então, pode-se dizer que o objetivo é descobrir quem somos, o verdadeiro Eu além do nome e da forma.
Meu professor favorito, Dogen, disse que meditação é abandonar a mente e o corpo. E é a mesma coisa que acontece na autoindagação, há um abandono da mente e do corpo. E quem permanece? Quando a mente e o corpo são abandonados, quem é que permanece?
Descobri que essas duplas são a experiência mais poderosa que já vi para pessoas despertando diante dos meus olhos. E mesmo na minha própria experiência, descobri que as díades confirmavam que eu estava no meu próprio caminho. E eu podia ver imediatamente se estava falando da pessoa ou se estava falando do “eu” da minha verdadeira natureza.
Parte Quatro – Capturando o Boi.
O ego espiritual pode surgir disfarçado. E é necessário aprofundar nossa rendição. O fogo da realização foi aceso. Mas os ventos do hábito ainda uivam. O boi foi visto, mas não vem voluntariamente. O velho eu se apega ao seu reino, mesmo sabendo que seu reinado está chegando ao fim. Os pensamentos surgem como ondas. Hábitos, medos, identidades, tudo volta para reivindicar o trono.
Essa é a luta após o despertar… o atrito sagrado entre conhecer a verdade e viver a verdade. O buscador tenta agarrar o boi, segurar o vislumbre, permanecer em quietude, mas, o próprio esforço se torna outra armadilha. Nesse estágio, muitos se perdem. Alguns constroem santuários para o vislumbre, confundindo a memória com a realidade. Outros são atraídos pelo ego espiritual vestindo mantos de humildade, mas, secretamente querendo ser vistos como despertos.
O boi da mente não pode ser capturado pela força. Ele não é domado pelo esforço, mas pela rendição.
Com o tempo, um ritmo começa. O boi resiste menos. A busca se suaviza. A consciência se aprofunda e a linha entre os dois começa a se confundir. Capturar o boi é parar de persegui-lo, perceber o domínio da mente e confiar na mão invisível da graça. O caminho se torna um paradoxo.
Menos fazer. Mais ser. Fazer sem fazer. O boi e o buscador começam a se mover como um só.
Nos verdadeiros ensinamentos não-dualistas, você desperta para quem você realmente é. Sim. E então você celebra continuamente. Você reconhece conscientemente isso repetidamente, até que se torne mais real, mais tangível, mais palpável, mais inegável do que a sua realidade de ser um ser humano.
A maioria das pessoas acredita e sente que é uma mistura de pensamentos, imagens, sentimentos, sensações, percepções, atividades, relacionamentos e assim por diante. E estamos tão envolvidos com o conteúdo de nossa experiência que negligenciamos ou ignoramos nosso Eu ou Ser essencial e irredutível. Para reconhecer nosso Eu essencial, as tradições espirituais elaboram caminhos pelos quais podemos traçar nosso caminho de volta através das camadas da experiência até reconhecermos nosso Ser essencial. Agora, tendo reconhecido nosso Ser essencial, não há mais para onde ir.
Uma vez que reconhecemos nosso Eu essencial, não é mais necessário nos envolver nesses caminhos ou práticas que nos levam de volta ao nosso Eu. Podemos começar com nosso Eu, mas não terminamos aí. Assim, no caminho sem caminho, reconhece-se que, na realidade, não há distância entre nosso eu e nosso Eu.
Para muitas pessoas que têm um despertar… parece haver uma sensação de compreender a piada cósmica. O despertar parece para a mente como um mistério, e há algo que precisa ser descoberto. E o relato que vem das pessoas nesse momento, especialmente, é essa sensação de “como pode ser tão simples?” É ridiculamente simples. É tão simples que a mente sempre vai deixar passar. E é somente quando a mente realmente desiste que fica tão óbvio o que somos.
De alguma forma, há essa mudança para a consciência. Tem-se falado muito sobre despertar e todos esses livros, sutras, ensinamentos e vídeos do YouTube sobre esse assunto. E todos eles apontam para algo tão simples, tão evidente, que está sempre aqui. É quase absurdo. Portanto, há um absurdo em procurar algo que está sempre presente.
Ramana Maharshi, ou Bhagavan para seus seguidores, usou uma analogia simples, mas, profunda, para descrever o despertar espiritual. Ele descreveu o despertar como tirar o plugue de um ventilador. O ventilador é o impulso da mente condicionada que perpetua o pensamento do “eu” e a identificação com o personagem. Assim como um ventilador continua girando depois que o plugue é desconectado, o condicionamento da mente e os padrões habituais e es persistem após o despertar. No momento do despertar ou kensho, não há mais identificação, não há mais testemunha e testemunhado.
Mas, após esse vislumbre do despertar, a mente retornará em algum momento. E muitas vezes há uma sensação de que eu tive isso. Mas então eu perdi.
Despertar para algo não significa ser a expressão viva desse algo. Significa apenas que você atingiu um pico e depois voltou ao estado padrão. Algo pode mudar. Mas, fundamentalmente, você continuará a viver sua vida com base no condicionamento. Então, no Neo-Advaita ou nesses círculos não-dualistas, você é o Ser. Isso é ótimo. Você desperta a consciência. Isso é lindo. E depois? Você é essa expressão viva? Não, isso requer prática. Isso requer remover o condicionamento profundamente enraizado, os vasanas, aquilo que faz com que voltemos ao nosso estado padrão. E é por isso que ouço continuamente… Oh, tive uma experiência iluminadora. E depois o ego voltou.
Os vasanas, ou tendências latentes da mente, são o que desencadeiam os samskaras, que são os velhos padrões de hábitos da mente que operam inconscientemente após o despertar. Há um processo de incorporação que acontece à medida que permanecemos continuamente na presença. Não há nada a fazer, exceto perceber a verdade cada vez mais profundamente à medida que os padrões inconscientes vêm à tona. Após o despertar, surge uma nova forma de sadhana… uma sadhana sem nenhum executor, que você poderia chamar de sadhana não-dual. Essa forma de sadhana não é separada da vida. É a própria vida.
Ramana disse que, através da vigilância contínua, aprendemos a não ligar o ventilador novamente. Mas não é vigilância no sentido normal. Não é uma vigilância para fazer algo, mas simplesmente uma vigilância para permanecer como o Ser. Um ponto significativo no caminho sem caminho é quando você não tem preferência por um estado ou outro… quando você pode olhar diretamente para a mente sem resistir e sem ficar preso a ela. Permitir que o corpo-mente seja exatamente como é.
Apenas, perguntando quem sou eu? Podemos chegar a algum tipo de compreensão conceitual do que somos e do que não somos. Mas isso não resolve realmente o problema. Precisamos estar conscientes de nós mesmos como realmente somos. O caminho de Bhagavan é um caminho muito, muito simples. É extremamente profundo. É o caminho definitivo. É a dissolução completa do nosso eu como indivíduo separado. E, quando nos dissolvemos, voltamos ao que realmente somos, que é o Ser infinito e eterno, que é a Consciência pura. Mas apenas dizer isso com palavras é inadequado. Temos que experimentar isso por nós mesmos.
O objetivo do despertar, da auto-realização ou da realização de Deus ou da iluminação, ou moksha ou libertação ou samadhi, seja qual for o caminho, o objetivo final é a Unidade. Unidade. Unidade de experiência, unidade de consciência, unidade do Conhecimento com “C” maiúsculo. Não é apenas porque li em um livro, que sou divino, ou porque ouvi alguém dizer isso e, portanto, sei intelectualmente, mas, porque realmente sei por experiência própria. E isso é o despertar.
Parte Cinco – Domando o Boi.
Quem é aquele que doma e o que está sendo domado? O buscador começa a ver que o boi nunca esteve separado. Que cada passo da jornada era o verdadeiro Eu brincando de esconde-esconde consigo mesmo. Aquele que segura a corda e aquele que é conduzido não são dois.
No quinto estágio, a lua de mel com o despertar acaba. Não se trata mais da clareza imaculada do kensho, mas, da disciplina e da integração na vida cotidiana. Para muitos, após o despertar, surge uma terra de ninguém espiritual. Um terreno de escavação de sombras, enfrentando luto, tristeza, resistência, falta de sentido, à medida que os vasanas e os samskaras continuam a surgir na presença.
Quando falo sobre o pós-despertar, há alguns pontos importantes a serem levantados com as pessoas. Um deles é que pode ser surpreendente o quanto o trabalho com as sombras se materializa, quanto trabalho emocional temos que fazer para realmente integrar essa mudança inicial de identidade.
Também acho importante salientar às pessoas que muito disso tem a ver com confiar na sua própria intuição, na sua intuição que vai além dos pensamentos, além dos conceitos. Quanto mais este processo se desenrola, mais confiamos nessa intuição. Quanto mais confiamos nessa intuição, mais sabemos quando é hora de fazer algum trabalho específico em torno de crenças, em torno de emoções, ou se é hora de continuar a permitir-nos render-nos ao processo.
Portanto, pode ser um pouco como uma dança que você aprende com o próprio proceso, há momentos em que algum trabalho intencional é importante. Alguma investigação intencional ou autoinvestigação é importante, e há momentos em que simplesmente temos que sentar e deixar o processo nos dominar.
Portanto, para ter esses tipos de absorção, esses tipos de samadhi profundo, esses tipos de descontinuidades profundas e inegáveis do fluxo da consciência, você precisa de rendição incondicional. Se um iceberg tem 10% acima da água e 90% abaixo da superfície, e eu digo ao iceberg: “Por favor, renda-se”, ele vai render 10%, porque é tudo o que ele conhece. Então, o que você precisa?
Você precisa primeiro reconhecer a si mesmo abaixo da superfície. Eleve-se ligeiramente até a superfície, para derreter até o centro da consciência, até a consciência suficiente. E então você pode se render incondicionalmente. E você tem o tipo de rendição que torna possíveis essas experiências “sem experiência”, que é uma absorção absoluta, digamos… absorção na dissolução completa de tudo. Mas então algo voltará ou parecerá voltar. E é aí que você precisa prestar atenção, explorar e investigar.
Dizem que quando o aluno está pronto, o professor aparece. O professor pode assumir muitas formas, e é importante compreender o lugar dos professores ou gurus no caminho sem caminho. Não afastamos o professor quando ele aparece e, ao mesmo tempo, não nos tornamos dependentes, não o idolatramos nem projetamos nele. Em sânscrito, o termo guru vem da raiz “gu”, que significa escuridão ou ignorância, e “ru”, que significa removedor dessa escuridão. Um guru é aquele que nos guia no caminho para a libertação.
Um verdadeiro guru ou professor tem apenas um objetivo. O professor irá apontar você diretamente para o seu próprio Satguru, ou seu próprio guru verdadeiro, que é a própria consciência. Então é verdade, quando o aluno está pronto, o professor aparece, mas quando o aluno está realmente pronto, o professor desaparece e a consciência é percebida como nosso verdadeiro Eu. É nesta fase da quinta imagem da condução do boi que a dependência dos ensinamentos e orientações de professores externos desaparece. E isso não significa que você não tenha um professor ou utilize ensinamentos em sua vida.
Mas agora que todas essas orientações estão simplesmente apontando para a própria Consciência, que está sempre presente. Uma vez que começamos a amar a consciência acima de tudo, ou você poderia dizer amar o divino ou Deus acima de tudo, então não precisamos mais de pensamentos, orientações ou ensinamentos. Não precisamos nos livrar dos pensamentos, mas, vemos através deles. Nós nos tornamos desinteressados por eles. Paramos de reagir e acreditar em nossos pensamentos e vemos todos os pensamentos e sensações como vazios de Si. A armadilha aqui é sutil, mas, insidiosa. É acreditar que você terminou. É confundir uma mente calma com uma mente livre. É muito comum que alguém se apegue à memória do despertar, em vez de estar na experiência direta. No quinto estágio, não há nada que possamos forçar. Trata-se de uma presença constante, firme, gentil e inabalável. Ramana chamou isso de vigilância.
Krishnamurti disse que a capacidade de observar sem avaliar é a forma mais elevada de inteligência. Aqui, vemos através da mente avaliadora, que se baseia no passado, na memória. Vemos através das preferências da mente, que se baseiam nos padrões de desejo e aversão.
Na linguagem cristã, você poderia dizer que se entregar totalmente significa fazer a jornada da minha vontade para a vontade de Deus. Na linguagem iogue, você poderia dizer que quando a energia se move além do sexto chakra, o centro de comando, à medida que segue para o chakra coronário, é a rendição da vontade pessoal à vontade divina.
Meister Eckhart disse: entregue completamente sua vontade a Deus e, em troca, ele lhe dará sua Vontade de forma tão plena e sem reservas que ela se tornará sua própria vontade.
Parte Seis – Levando o boi para casa.
Não há mais luta. A corda está solta. O pastor canta. O boi caminha por conta própria. O caminho é fácil. O destino foi esquecido. A alegria surge. Não a alegria do ganho, mas, a alegria que flui da permanência no eu. Sat-chit-ananda… a bem-aventurança que flui de uma mente indivisa. Uma mente na qual o pensamento do “eu” cedeu lugar.
A mente não domina mais. No entanto, ela não é negada. Os pensamentos vêm e vão como pássaros em um céu aberto. Os sentimentos surgem e desaparecem como ondas. Mas o oceano permanece em suas profundezas. Essa ainda não é a libertação final, mas, o Eu agora é um companheiro confiável. Um gostinho da verdade não é mais raro. É o próprio mundo tal como ele surge. Há menos separação ou julgamento entre isto e aquilo, e caminhos aparentemente separados e contraditórios podem coexistir sem resistência, sem problema. A vida se torna um único sabor; cada vez mais não-dual, integral e incorporada, à medida que nos alinhamos com a inteligência interior. O campo prânico, ou Espírito consciente que dança como todas as coisas.
Existe uma inteligência no universo. E se estivermos abertos a ela, ela fluirá através de nós da mesma forma que a inteligência mostra às lagartas como se tornarem borboletas e às sementes como brotar e se tornarem árvores, e às árvores como dar frutos. De alguma forma, existe um conhecimento. Para mim, foi realmente uma graça ter me encontrado aqui. Ter me encontrado aqui com o coração aberto o suficiente. E é uma pergunta que me fazem muito, sabe… Você é um cientista. Você é um acadêmico. Como você tem fé em Deus de uma perspectiva científica?
E para mim, na verdade, não é um dilema ou um conflito, porque a verdade da ciência é tão boa quanto suas ferramentas. E isso é bom, desde que a ciência não tente reivindicar jurisdição sobre aquilo para o qual não tem ferramentas para medir. E esse é o reino da espiritualidade. E então o que você tem são pessoas, sábios, santos, iogues, rishis, místicos que realmente desenvolveram suas próprias ferramentas.
Não eram provetas e bicos de Bunsen, nem telescópios e microscópios. Eles desenvolveram ferramentas para ir para dentro. E o que descobriram dentro de si, em alguns casos, coincidiu com o que as ferramentas científicas nos ensinam. É sempre engraçado hoje em dia ouvir a ciência ocidental, entre aspas, descobrir algo que as escrituras védicas vêm nos dizendo há milhares de anos. A ideia de que estamos todos interligados, interconectados, que não estamos separados, que essa separação é uma ilusão. Então, hoje falamos sobre entrelaçamento quântico. Falamos sobre teoria das cordas.
O objetivo mais elevado do nascimento humano, da experiência humana, que é conhecer a verdade de quem somos. Ter realmente essa experiência da realização de Deus, da realização do Eu, não apenas intelectualmente ou academicamente, mas, realmente tocar e conhecer essa verdade de si mesmos, essa divindade de si mesmos, essa inseparabilidade de si mesmos do divino, do universo.
Não se trata de escolher ciência ou religião, isto ou aquilo. Trata-se disto E daquilo. As partículas quânticas vivem em superposição. Elas são isso e aquilo até serem medidas. Em termos espirituais, antes que um pensamento surja, você é ninguém e é todo mundo. Tanto a forma quanto o vazio. Assim que você diz: “Eu sou este corpo”, “Eu sou este papel” ou “Eu sou iluminado”, você colapsa o campo no ego, a máscara é escolhida e a peça começa novamente.
Parte Sete – O Boi Esquecido, o Eu Sozinho.
O boi se foi. Não há mais necessidade de buscar. Nada resta para domar. Nenhuma corda, nenhum cavaleiro. Imóvel. Não nascido. Sem nome. Até mesmo a ideia de iluminação desaparece. Este é o estágio que os sábios mencionam em enigmas e os místicos transmitem através do silêncio. Ramana chamou isso de Coração, Nisargadatta chamou de Absoluto. O Zen chama isso de não mente. Não há quem faça, nem quem pense. Não resta ninguém para despertar. Apenas este vasto, nu e direto conhecimento, intocado pela ascensão e queda dos mundos.
Quando despertamos para algo, é como se descobríssemos a realidade do nosso Ser. Mas despertar não é suficiente. É apenas o começo. Quando a intenção volta para si mesma, a primeira coisa que você reconhece é: “Ah, há algo diferente aqui”. Pela primeira vez, você não está indo para a objetividade, para os objetos.
Então, haverá um conhecimento inato de autoconsciência em você. Como se você simplesmente soubesse. Você sabe em um nível além da mente, completamente além da mente. E não é algo que você possa duvidar. Você simplesmente sabe. Como a mente, como o seu veículo traduzirá isso?
Normalmente é como uma sensação de espaço, uma sensação de vazio, uma sensação de bem-estar ou tranquilidade ou apenas uma espécie de conhecimento inato além da mente. É como se você estivesse se reconhecendo nos pensamentos pela primeira vez. Você costumava se referir a si mesmo como um objeto, como um ego, como uma pessoa, e agora está descobrindo sua subjetividade, quem você realmente é.
Quando você entra em contato com isso, há uma sensação inegável de ter tocado algo que nunca foi afetado por nada. Que não envelhece, não morre, não nasceu. Esse conhecimento inato que não pode ser transmitido por palavras é o primeiro tipo de reconhecimento que geralmente os buscadores têm.
E então, à medida que eles amadurecem e se familiarizam com isso, começa a irradiar uma sensação de espaço, leveza, um prazer sutil que pode se transformar em alegria ou felicidade. Uma espécie de amor… Que são qualidades fundamentais muito importantes.
Porque mesmo quando você se reconhece, a mente entra em ação e simplesmente desvia sua atenção. Mas se você tem uma sensação de bem-estar, uma sensação de amor e alegria, será muito mais fácil amadurecer e descansar em si mesmo do que se fosse apenas uma autoconsciência seca e vazia. Esse tipo de sadhana não-dual não requer nenhum tipo de imaginação. Não requer o uso da mente para nada. Não. Você tem que deixar tudo ir.
Deixe ir a imaginação. Deixe ir a mente. Deixe ir aquele que quer se render. Deixe ir o esforço. Deixe ir a falta de esforço. Deixe ir o deixar ir. É como morrer conscientemente enquanto permanece vivo. Não é ter medo de enfrentar a morte existencial, mesmo que você não esteja literalmente morrendo. Quando você vai dormir à noite, você entra nessa descontinuidade todas as noites, no sono profundo, todas as noites. Mas você faz isso inconscientemente. Agora você tem que fazer isso conscientemente. E essa é a diferença.
Estamos falando sobre prática não-dual. A prática não-dual é muito diferente da prática dualística, porque a prática não-dual não implica que algo está faltando, que você precisa obter ou prestar atenção a algum objeto. Trata-se apenas de repousar ou descansar em sua própria Fonte, em seu próprio Ser, apenas sendo… sem fazer nada. Voltando a flecha da atenção para si mesmo. Descansar na consciência, no seu próprio Ser. Portanto, isso não é uma prática. É uma prática sem prática. E é muito necessária.
Parte Oito – Esquecendo tanto o Eu quanto o Boi.
O círculo, o sagrado Enso… não o nada, mas tudo o que é incompreensível. O vazio luminoso, ou um vazio dançando como todas as coisas. O lugar onde o pensamento do “eu” se dissolve para sempre. No Zen, dizem que não há ninguém a alcançar e nada a alcançar. Isso não é um fim. É o desaparecimento da necessidade de começos e fins. Desperte como aquilo que nunca nasceu.
Na não-dualidade, o que mais nos interessa são os três últimos estágios. As três últimas imagens… na oitava. Não é nada. É apenas uma imagem vazia. Não há nada acontecendo ali. E para muitas tradições espirituais, tradições não-duais, esse é o ápice. É como se você fosse além de toda dualidade e encontrasse a dissolução verdadeira e absoluta. Você encontra o que está além da luz da consciência. Você encontra a luz sem luz. Você encontra o não manifestado, o não nascido. Então, isso é lindo, mas, essa é a oitava imagem. Ainda há a nona e a décima imagem.
Parte Nove – Retornando à Fonte.
T.S. Eliot disse: “Não devemos cessar a exploração, e no fim da nossa exploração chegaremos onde começamos e conheceremos o lugar pela primeira vez”.
No Zen, há um ensinamento chamado “montanhas e rios”. No início do caminho, as montanhas são montanhas e os rios são rios. Após alguma compreensão, as montanhas não são mais montanhas e os rios não são mais rios. Mas, após a libertação total, as montanhas e os rios são.
O conceito de montanha e rio foi abandonado. O filtro desapareceu, revelando a grande realidade. A montanha, o rio… são revelados como Shiva. O grande mestre tibetano não-dualista Longchenpa disse: “Tudo surge como um jogo da consciência”.
O nono mostra o mundo sem ninguém nele, o que significa que você não está mais se referindo a nada. Não a um eu, não à consciência, não a nada. Você é uma intimidade completa e sem fundamento. Você não precisa se referir a si mesmo como nada. Nem mesmo um eu, nem mesmo um eu transcendental. Absolutamente nada. Você está livre de todos os tipos de referências a si mesmo. O mundo continua sem nenhuma referência a si mesmo. Ele se desenrola da maneira que precisa. Toda a realidade simplesmente se manifesta. Um pássaro canta, uma folha balança ao vento, um cachorro late. Uma pessoa fala. Uma supernova acontece no espaço. Não há necessidade de ter nenhuma referência a si mesmo como identidade, como pessoa. Nem mesmo uma transcendental.
Parte Dez – Entrando no mercado com as mãos abertas.
O mistério da não-dualidade atinge seu clímax na décima imagem. Ser liberado além da liberdade e da escravidão é permanecer em sua verdadeira natureza, que nunca foi escravizada.
Mas então a maior mudança, a maior transformação, acontece na décima imagem, que mostra o mercado e o fazendeiro de volta ao mercado. Isso é extremamente importante porque, caso contrário, acreditaríamos que precisamos ser santos para manifestar e incorporar algum grau de realização e insight, o que não é o caso. Você é livre para fazer o que quiser. E como qualquer tipo de expressão não pode ser uma expressão disso?
Portanto, apesar do que você faça, tudo flui… não faz diferença. Você é livre. Onde se encontra a realidade senão aqui, neste momento, na sua experiência atual? O que mais poderia ser? Como você pode não ser uma manifestação pura da realidade? Seja qual for a sua manifestação.
Moksha, Salvação, Nirvana, Libertação, Auto-Realização, Satchitananda, Liberdade, Nirvana, Iluminação, Manonasa e assim por diante… são apenas conceitos.
O que eles significam para você? Eles têm significado porque você acredita que está preso. Eles têm significado porque você acredita que é ignorante. Remova aquele que acredita. Remova esse “eu” e você verá verdadeiramente.
Mas enquanto existir escravidão, a liberdade, ou o conceito de liberdade, ou o anseio pela liberdade, existirão. Quando você é livre, você está livre tanto da escravidão quanto da liberdade. Quando você é liberado, você está liberado tanto da libertação quanto da escravidão, porque elas são uma interação dualística, interdependente, que coexistem. A libertação é tudo. Não há vida sem libertação. Não há alegria sem libertação. Não há liberdade sem libertação. Mas, em algum momento, até mesmo a libertação é deixada para trás, porque é um conceito. Estamos interessados na experiência crua e direta. Como diz o ditado, nunca devemos confundir o dedo com a lua. O dedo aponta para a lua. Mas não é a lua.
Ser livre além da liberdade não é elevar-se acima do mundo, mas caminhar descalço por ele sem nada a ganhar e tudo a dar. Deixem-me contar-lhes uma história… não como um ensinamento, mas como uma piscadela do mistério. Em um mercado movimentado, onde o sagrado e o mundano se misturam sem separação, um homem se aproxima de uma figura estranha. De barriga redonda, olhos radiantes, vestido com trapos e rindo sem motivo algum, é Hotei, o chamado Buda Risonho. Não é um professor, mas um ponto de interrogação. O homem curvou-se ligeiramente perante esta figura. Ele reconhece algo em Hotei. Por favor, diz ele, “Qual é o significado do Zen?” Hotei dá um passo em frente, sorrindo amplamente. Ele abre os braços e envolve o homem num abraço caloroso. Sem palavras, apenas a intimidade absoluta do momento presente. O homem exala um longo suspiro. No fundo, algo se suaviza. Outra pergunta surge… “O que é a sabedoria suprema?” Hotei não diz nada. Ele se inclina e levanta sua velha bolsa de pano, vira-se e caminha para a multidão sem olhar para trás, e desaparece. Essa foi sua resposta. Um abraço, uma partida. Presença e desaparecimento. A plenitude do amor, a liberdade do desapego. Este é o caminho sem caminho. Não para ser compreendido, mas para ser vivido.
